Maioria silenciosa

Fiz parte dos 37, 39% que se abstiveram. Bem sei que não foi um acto de maturidade democrática. Alheei-me da decisão. Mas que culpa tenho eu de querer fugir à vertigem de acreditar que decido enquanto parte de um sistema viciado por aqueles que não cumprem o que prometem, que criam e vendem fantasias em função das conveniências do momento, e não revelam honestidade intelectual para com o comum cidadão.
Não acredito, no actual contexto político, numa mudança que advenha do acto de votar. Quem não vota abdica de decidir sobre o futuro do seu país? Falácia.
O problema é que não podemos ter a ambição de reformar através do voto, porque no nosso contexto politico, este não traduz reais opções de mudança.
O que temos é uma bem engendrada ilusão popular onde a elite politica dos últimos trinta anos representa: a vitória do bem sobre o mal, a democracia contra a ditadura, a restituição da liberdade arrancada às garras do fascismo, e muito mais…O que se cria, e subsiste, é uma classe política que se homogeneíza nas questões fundamentais de forma a garantir a sua permanência nos corredores do poder. Podemos designa-los por “lobi de Estado”.
O regime não está esgotado, quem o compõe, lhe dá forma, é que se encontra coarctado de ideias e soluções, atolados num lamaçal burocrático e de compadrio, da esquerda à direita, uns mais do que outros, mas sem excepções.
A campanha eleitoral para a eleição de Presidente da República serve de fundamento ao que acabei de referir. O que aconteceu aos homens livres que fora das máquinas partidárias tentaram concorrer ao presente acto eleitoral? Os partidos não deveriam ser secundários? E foram?
Opção! Qual opção? Formar um movimento cívico?


Ps: Para mim a diferença entre voto em branco e abstenção define o limite entre acreditar ou não no sistema. Nas presidências abstive-me, não só, pelas personagens, mas também, pelos poderes atribuídos à função. Mas sobre isso falaremos um dia.

3 comentários:

Sileno disse...

A definição dos problemas constituem o primeiro passo para a descoberta de uma solução adequada.
O problema da sociedade portuguesa, bem como de grande parte das sociedades europeias, reside, efectivamente, na desadequação política às realidades e necessidades administrativas, retomando a já antiga e (in)suficientemente analisada dicotomia entre o interesse público e os interesses privados. A solução para o problema, desconheço-a, contudo que ela existe não tenho dúvidas. A verdade, porém, é que nos termos em que se apresenta actualmente organizada a sociedade política nacional, num verdadeiro, como referes, "lobi de estado", não permite, de per si, qualquer reacção eficaz.
Considero-me como alguém com verdadeira confiança nos princípios básicos da democracia e entendo que só com os instrumentos ao nosso dispor num sistema democrático poderá ser alterado o actual estado de coisas.
A questão poderá ser analisada de outra perspectiva, se entendermos que actualmente não vivemos já num verdadeiro sistema democrático, na medida em que a escolha dos representantes do "povo" está condicionada pela ascenção partidária com base em critérios de favor.
Em todo o caso, qualquer tentativa de evolução do sistema administrativo nacional passará, impreterivelmente, pela vontade do povo português; vontade, essa, intimamente ligada com a quantidade e a qualidade de informação ao seu dispor e bem assim da admissibilidade de desinformação.
É nesta medida que todos nós somos pessoalmente responsáveis pela forma como tem sido utilizado o sistema político nacional, seja por compactuar com ele, seja por não ter consciência dele, seja por nada fazer para o alterar.
A resposta reside, assim, em cada um de nós.

Midas disse...

A definição do problema demonstra a incapacidade do indivíduo em superar o que desconhece, aquilo de que não têm consciência.
Logo, se aqueles que têm consciência (ou pensam que têm), do dito problema são uma minoria, o sistema trata-os como tal.
Não menos interessante é que as diferentes minorias quando juntas revelam força. É essa força que não se mostra na análise dos resultados eleitorais. Derivada de múltiplas motivações, que podem proporcionar um sem número de interpretações, a abstenção não pode continuar a ser justificada pelo sol, pelo ócio, pela falta de responsabilidade. A justificação é bem menos simplista e desconfiámos porquê.
Só com muita originalidade se consegue passar a mensagem. É essa a luta dos próximos tempos. Construir uma mensagem coerente, consistente e conseguir divulga-la. Pelos menos estar atento, não permitir que decidam por nós, naquilo que realmente depende da nossa acção e vontade.
“A resposta reside, assim, em cada um de nós.” Também me parece.

Anónimo disse...

Oprime-se um fraco: no final ele sai engrandecido...